quinta-feira ,24 setembro 2020
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Tragédia em Mariana: um ano de luto e luta

O maior desastre ambiental do País, com o rompimento da Barragem de Fundão em Mariana, completa um ano neste sábado (5). De acordo com pesquisadores, que estiveram coletando material no Rio Doce, os danos da lama vão durar décadas.

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Rio Doce em Colatina Foto: Tell Miranda

O Presidente da Associação de Pescadores de Colatina, a APESC, Edson Negreli é só tristeza ao falar do Rio Doce. Um ano após a lama de rejeitos chegar à Princesa do Norte, Edson se preocupa com a condições do manancial e com a qualidade dos peixes.

dsc_1973  “As pessoas estão pescando os peixes e dizendo ‘O peixe não morreu, então está bom. Se tivesse veneno, tinha morrido’. Mas não é veneno de matar o peixe, são metais pesados e outras coisas que vão acumular no organismo das pessoas e só vai fazer efeito ao longo do tempo. Não é uma coisa que do tipo ‘comeu, morreu’, vai desencadear qualquer tipo de problema, como câncer ou não. A grande questão é essa. E nós temos nenhum tipo de estudo que diga ‘Olha, esse peixe pode ser consumido e esse não’. 

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Pesquisadores disseram que não tem como prever quantos anos o Rio Doce vai voltar ao normal Foto: Tell Miranda

A Flávia Bottino faz parte de um grupo independente de pesquisadores que se organizou pela internet para executar uma análise colaborativa dos impactos ambientais resultantes do rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, em MG. O trabalho deles consiste em coletar amostras de água e sedimentos da Bacia do Rio Doce para saber como estão os níveis de contaminação.

dsc_1968“Essa já é a terceira expedição que os pesquisadores do Giaia, realizam ao longo do Rio Doce, visando analisar a água e as comunidades biológicas do leito do rio. Nós coletamos amostras que são enviadas a laboratórios de universidades do país. O resultado é publicado no site e na fanpage do grupo em uma linguagem o mais simples possível, para atingir toda a população”.

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Pesquisadores coletam amostras de água do Rio Doce Foto: Tell Miranda

O André Cordeiro é professor de Microbiologia na Universidade de São Carlos, a UFSCAR, e faz parte da expedição. Para ele, a lama afetou o Rio Doce de uma tal forma que é difícil dizer quando o manancial estará recuperado.

dsc_1965“O impacto ainda existe, por que boa parte da lama que saiu da barragem continua depositada nas margens do rio e na cabeceira. Agora vai começar um outro período de chuva, e, provavelmente, boa parte dessa lama vai continuar descendo. Como o volume de lama é muito grande, isso vai acontecer durante muitos anos…”

A chegada da lama em Colatina no ano passado obrigou o município a suspender a captação de água na cidade. A Samarco então passou a distribuir água mineral para a população, que formava grandes filas nos postos de entrega.

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Regência em Linhares Foto: Tell Miranda

Depois de percorrer cerca de 650 Km, a lama de rejeitos de minério chegou ao mar pela foz do Rio Doce em Regência, em Linhares. Refúgio de surfistas, o lugar ficou conhecido pelas ondas perfeitas e pelo ecoturismo. Além dos danos ao ecossistema do vilarejo, o desastre ambiental foi um duro golpe no turismo ecológico, espantando surfistas e visitantes.

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O movimento nas pousadas caiu com a falta de turistas Foto: Tell Miranda

Os donos de pousadas e restaurantes viram o movimento diminuir. Muitos estabelecimentos não resistiram e fecharam. E se a situação no comércio não é boa, quem vive da pesca também sofre os efeitos da tragédia. Sem poder exercer a atividade pesqueira, o pescador Paulo Henrique recebe todo o mês um auxílio de R$ 1.500,00 pago pela Samarco.

“O dinheiro ajuda, mas gostaria mesmo era de voltar a pescar e não depender do auxílio. Antes havia muitos peixes, agora é isso aí que vocês estão vendo… barcos atracados no mar e a atividade pesqueira totalmente parada”, diz. 

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A pesca está proibida em Regência Foto: Tell Miranda

Um ano após a chegada da lama ao mar de regência, a praia já não apresenta aquela coloração amarelada, que manchou a praia no dia 21 de novembro de 2015. Mesmo assim, poucos surfistas se aventuram a entrar no mar. Para Joceli Andreoli, representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens, o MAB, quem depende do turismo sofre com a incerteza sobre a situação da água e o impacto ambiental causado pelo desastre.

dsc_2018“Em Regência, o impacto sócio ambiental foi muito grande. Eu diria que, hoje, todos no vilarejo foram afetados. Desde o pescador, que não pode pescar, até quem vive do turismo. Em conversas com donos de pousada, muitos quebraram e fecharam as portas. O MAB defende que as famílias atingidas tenham uma justa e devida reparação. Não pode ser, como está sendo hoje, que o responsável pelo crime diga quem são os atingidos e quais as formas de reparação. As famílias precisam participar desse processo”, pontua.

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Marcha dos atingidos pela Bacia do Rio Doce (MAB) Foto: Yuri Barichivich/Greenpeace

Na segunda-feira, 31, o movimento iniciou a marcha dos atingidos pela Bacia do Rio Doce. Os participantes saíram de Regência e seguiram para Mariana, destino final do grupo que levanta a bandeira “um ano de lama e luta”.

Por Carlos Souza

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