quinta-feira ,1 outubro 2020
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‘Novo normal’, no Brasil, é morrer ou se fingir de morto

“Novo normal” é a expressão batida de tempos pandêmicos que celebra e imagina um mundo redesenhado pelas contingências provocadas pelo coronavírus.

Implicitamente, aponta que o risco do desconhecido, do contato e da circulação nos leva a manter vidas mais regradas, com alguma possibilidade de rastrear a origem e protocolos de produto e serviço até nossas casas, o novo epicentro do planeta onde vivemos, trabalhamos, consumimos, inventamos horas de lazer e redobramos cuidados com a saúde, a higiene, a resistência e a imunidade. Conectados, recriaríamos laços com produtores locais e as bases comunitárias esgarçadas por um tempo, não muito distante, em que tudo precisava atravessar o oceano, com lastros e lastros de carbono e carga viral, para chegar até nós.

Em cinco meses de quarentena, uma quarentena sem hora para acabar por aqui, “novo normal” se tornou também vítima de outro termo desgastado por mau uso em tempos de isolamento: a ressignificação.

Pois o “novo  normal” também se ressignificou. Em agosto, não tem mais nada a ver com o “novo normal” imaginado em meados de março ou abril.

Passou por tantas crises, internas e externas, que se posiciona agora entre a resignação e o cinismo. E o que tinha de força política evaporou.

Esse “novo normal” permitiu, por exemplo, que o assunto mais falado nas casas já não tão isoladas fossem as finais dos campeonatos estaduais e o início do Brasileirão, além dos encontros familiares e as aglomerações no Dia dos Pais — e não a marca dos 100 mil mortos. 

Não, ninguém está pedindo que você se vista agora de preto, viva um luto permanente, bote um véu escuro no rosto e (não) saia às ruas para demonstrar o sentimento de tristeza e pesar.

Mas o esforço para disfarçar o indisfarçável e recriar uma atmosfera de normalidade, como se não estivéssemos contabilizando ainda mais de mil mortes por uma doença fora de controle, ajuda a explicar a tragédia nacional.

Para quem escreve, a sensação de reciclar uma nota velha chega em forma de cansaço toda vez que citamos as palavras sabotagem, irresponsabilidade, mau exemplo, declaração descabida, indiferença, “gripezinha” e outras tags relacionadas ao papel do presidente da República na pandemia.

Foi ele quem, desde o início, moveu todos os esforços para orientar a população, que jurou colocar acima de tudo, a não quebrar as engrenagens da normalidade. Foi ele quem convenceu uma parte considerável dos que ainda devotam credibilidade em seus planos de ação, ou inação, e agora vê como celebração mórbida o anúncio da tragédia anunciada, como se noticiar o resultado do morticínio fosse apenas “torcer contra” ou ver o lado apenas ruim das coisas um país adoecido.

A outra opção é o silêncio e nesse silêncio seguimos a passagem fúnebre do relato de uma tentativa de autogolpe aqui, um novo cheque para a primeira-dama acolá, uma explicação implausível do filho investigado do presidente também ali.

Nada disso terá acontecido se juntarmos energia positiva e acreditarmos só no que não nos deprime. O mito não aceita outra versão se não a da figura infalível e ungida pelos deuses.

É esse otimismo alienante, de quem se acredita imune pela fé ou o ceticismo na “farsa” da ciência, que nos move e nos faz circular e baixar a guarda, transformando o “novo normal” em “vamos fingir que nada está acontecendo”. Quem sabe deixando de dizer que o tigre está à mesa, rosnando faminto, ele desapareça por bom senso e nos poupe?

No cansaço dos derrotados, nos refugiamos numa projeção de alegria tão urgente quanto uma nota de 200.

Alguns, os indelicados, preferem usar as redes para dar vazão à dor e jogar água no chope dos esforços conscientes e inconscientes por normalização. Não tem dia que não tem alguém se despedindo de alguém. E daí? Alguém ainda se emociona?

A essa altura muitos preferem não ver. Ou fingir que não viu. E vão cantar os versos melancólicos de Chico Buarque sobre nossa auto comiseração:

“Pelo prazer de chorar e pelo ‘estamos aí’

Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir

Um crime pra comentar e um samba pra distrair

Deus lhe pague”.

Fonte: Yahoo

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