sábado ,26 setembro 2020
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Morte de menina de 11 anos em decorrência da Covid-19 leva a descobertas para tratamento da forma infantil grave da doença

No coração devastado de uma menina, cientistas brasileiros descobriram marcas do ataque direto do coronavírus ao músculo cardíaco das crianças. A menina de 11 anos não sofria de doença preexistente, era até então saudável, e morreu de insuficiência cardíaca um dia após ser internada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

As áreas escuras mostram a necrose no coração

Os pesquisadores esperam que a investigação abra caminho para tratar melhor o que se considera ser a forma infantil grave da Covid-19. O caso chama a atenção primeiro porque o coração e não o pulmão foi o principal alvo do Sars-CoV-2. O estudo indica ainda que o vírus sozinho pode diretamente provocar muitos dos danos que têm sido atribuídos a uma reação inflamatória.

Além da autópsia, os cientistas fizeram uma análise molecular. Sequenciaram o genoma e o exoma (parte do genoma que codifica os genes, usada para buscar mutações) da criança em busca de alterações genéticas que a fizessem vulnerável ao ataque do coronavírus, como doenças imunológicas hereditárias. Nada encontraram. Ela não tinha qualquer fator de risco conhecido.

Outros quatro casos de crianças mortas com diagnóstico de síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (Sim-P) estão em análise pela mesma equipe, diz Paulo Saldiva, professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP.

Intitulada “Sars-CoV-2 em tecido cardíaco de uma criança com síndrome inflamatória multissistêmica relacionada à Covid-19”, a pesquisa foi publicada na revista Lancet Child & Adolescent Health e tem como principal autora Marisa Dolhnikoff, também da USP.

O estudo revela em minúcias a agressividade do ataque do coronavírus. Os detalhes pessoais do caso não foram revelados para preservar a privacidade da família da menina, que autorizou a autópsia e o estudo.

Sintomas eram febre alta, dificuldade para engolir e dores musculares

A menina morreu no primeiro semestre, era negra, tinha 11 anos e apresentou sintomas por sete dias antes de ser internada. Seus sintomas eram febre alta, dificuldade para engolir alimentos e dores no abdômen e nos músculos.

A menina já chegou ao HC/USP com dificuldade respiratória e insuficiência cardíaca congestiva. Foi internada na UTI com a pressão arterial muito baixa, taquicardia, crepitação na base do pulmão e alteração no fígado. Os membros estavam frios. Tinha conjuntivite e seus lábios estavam rachados. Ela foi logo intubada, mas não resistiu.

O caso chamou a atenção dos médicos e recebeu indicação de autópsia minimamente invasiva, autorizada pelo comitê de ética da USP e pela família. Na autópsia os cientistas removeram pequenas amostras de coração, pulmão, fígado, baço, cérebro, rins, músculo da coxa e da pele. Mas, segundo Saldiva, a retirada de amostras não é a etapa mais complexa. Apenas preparar a lâmina para estudo em microscópio eletrônico leva cerca de 15 dias.

— É como um trabalho de ourives, muito delicado. As lesões que coronavírus provoca não são visíveis nos microscópios óticos — explica.

Por meio do microscópio eletrônico, os cientistas viram que amplitude de ataque. Áreas de necrose no coração, microtrombos em artérias pulmonares e renais, danos hepáticos e renais.

— Essa menina foi vítima do ataque do coronavírus ao coração. Outras partes do corpo foram afetadas, mas o principal alvo foi o coração. Nosso estudo é o primeiro a demonstrar a ação direta do vírus ao coração de uma criança por meio de autópsia — frisa Saldiva.

“Não permitiria filho ou neto a voltar às aulas”, diz especialista

O grupo da USP faz um trabalho pioneiro no Brasil de autópsias minimamente invasivas. Mais de 70 corpos de vítimas da Covid-19 já foram examinados, mas a menina foi a primeira criança. O objetivo é fazer o que Saldiva chama de cartografia do ataque do coronavírus contra o corpo humano. O pulmão é só a porta de entrada para o vírus, que pode chegar “a qualquer parte do corpo”, diz o pesquisador.

Saldiva acrescenta que o HC já atendeu a mais de cem casos de crianças e adolescentes com Sim-P — o número total no Brasil é desconhecido.

A Covid-19 nas crianças é clinicamente distinta da dos adultos. Nela, segundo o Saldiva, ocorrem danos diretos provocados pelo coronavírus e também uma reação inflamatória.

— Aparentemente começa com uma dor abdominal e vai evoluindo. O comprometimento respiratório não chama a atenção. É uma manifestação diferente da Covid-19 que ainda não compreendemos bem. Mas tudo indica que tratamento com anticoagulantes e corticoides podem ter um bom resultado — explica Saldiva.

O estudo está tendo grande repercussão e chega num momento em que se discute a reabertura das escolas.

— Se eu tivesse filho ou neto em idade escolar, não permitiria que fosse às aulas. Não neste momento. A Covid-19 raramente se agrava em crianças, mas quando isso acontece, pode matar — afirma Saldiva.

Fonte: Yahoo

Tell Miranda

Jornalista e radialista

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